#REVIEW: Em Um Bairro de Nova York (sem spoilers)

Por Madson Melo

Adaptar musicais que nasceram nos palcos para a tela grande sempre foi uma questão para quem se arrisca nesse gênero do cinema. Desde entender como transpor o material do teatro para o cinema, até que músicas ficarão na versão final ou que atores escalar para o projeto, tudo precisa ser pensado da melhor maneira. Na década passada, vimos algumas adaptações, como ‘’Rock of Ages’’ (2012) e ‘’Cats’’ (2019), se tornando alguns dos piores filmes de seus respectivos anos. Então, como ‘’In the Heights’’, aqui ‘’Em Um Bairro de Nova York’’, conseguiria driblar todas essas adversidades e realizar um longa de qualidade e sucesso? Felizmente, todas as decisões tomadas para o filme, acabaram resolvendo essa questão.

Cena de “Em Um Bairro de Nova York” / Reprodução

A obra conta a história de Usnavi, um simpático proprietário de uma bodega de Nova York, que economiza cada centavo todos os dias enquanto imagina e canta sobre uma vida melhor. Além dele, personagens como Nina, Benny, Vanessa e ‘’Abuela Claudia’’ também possuem sonhos e desejos, seja dentro ou fora do bairro de ‘’Washington Heights’’. É um filme sobre a identidade latina em um país que não os abraça completamente. Só por isso, já carrega um grande significado para quase 20% da população americana atual, visto que a indústria de Hollywood sempre foi muito problemática em colocar minorias na telona. A quantidade de atores que, durante décadas, fizeram ‘’brown face’’ (o equivalente ao ‘’black face’’ para latinos) é incontável. Então, dar cara e forma a esse projeto de forma respeitosa sempre foi a grande questão dele como todo.

Para começo de conversa, o elenco é composto de atores, basicamente, desconhecidos, mas muito talentosos, e de origem latina. Anthony Ramos (‘’Hamilton’’) está em estado de graça, mostrando que grandes estrelas latinas só precisam de espaço para existir. Ele cria uma conexão muito rápida com o espectador e acaba por liderar um elenco bastante iluminado e comprometido com o filme. Entre os destaques, para além de Ramos, estão Melissa Barrera como uma Vanessa magnética e determinada, assim como Olga Merediz, que originou o papel de ‘’Abuela’’ Claudia no palco e aqui entrega a performance que sintetiza o filme, nos deixando arrasados em seu grande número.

Anthony Ramos em “Em Um Bairro de Nova York” / Reprodução

Aliás, o roteiro de Quiara Alegría Hudes (também autora do libreto do musical), é muito sobre encontrar seu lugar mesmo que lhe digam que você não pertence a algo. Nós temos a capacidade de nos firmar onde quer que esteja, e o texto, junto da trilha do sempre incrível Lin-Manuel Miranda, se unem para que isso fique bem claro para nós. As letras e melodias de Miranda são inteligentes, viciantes e com muita identidade. Entre as melhores canções, e também momentos visuais do filme, estão a abertura em flashmob de ‘’In the Heights’’, a divertidíssima sequência de ‘’96,000’’, a energética ‘’Carnaval del Barrio’’, e o solo emocionante de ‘’Paciencia y Fe’’.

E, para criar essa força imagética do filme, o Jon M. Chu, não tem qualquer medo de entender que musicais são escapistas, lúdicos e com um escopo muito abrangente. Seus números musicais são incorporados de forma suave a narrativa e não tem coreografia de peruca ou dança em paredes de prédio que te tirem da atmosfera do filme. Pelo contrário, elas te trazem para aquela realidade e fazem com que você queira sentir aquele calor e energia para muito mais do que as duas horas e meia de projeção.

Cada sequência é belamente montada, fotografada e dirigida. E ganham ainda mais pungência no rosto e voz desses atores, que são a epítome de tudo que a obra quer falar. É um desejo de todos poder realizar sonhos, mas é preciso, antes de tudo, sonhar com eles. E nesse misto de fantasia e realidade, que ‘’Em um Bairro de Nova York’’ habita e nos convida para viver. E, nossa, que bela visita você tem ao final de tudo.